segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Portugal e o mercado da música brasileira

Hoje saiu uma matéria no jornal diário de maior distribuição em Portugal, o Público, falando sobre as vendas do produto musical brasileiro.

Não por acaso, as vendas de cds caíram. Mas é legal dar uma lida na matéria e refletir acerca desse momento, principalmente levando em consideração as possibilidades do mercado português, e de como o país colonizador absorve(u) a música de nosso gigante pela própria natureza.

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Música brasileira ainda vende mas já teve melhores dias em Portugal

09.02.2009, Nuno Pacheco

Nos 100 anos do nascimento de Carmen Miranda fomos ver se a música vinda do Brasil ainda atrai muita gente às lojas. As respostas são contraditórias mas os números assinalam a queda


Naquela noite o Coliseu de Lisboa encheu-se até às galerias. No palco, Milton Nascimento fazia a sua estreia nacional e foi um sucesso absoluto. Muita gente já tinha discos dele mas ainda quase ninguém aqui o vira, de perto, a cantar Caçador de mim ou Nos bailes da vida. E isso sucedeu a 7 de Julho de 1982. Não foi o primeiro concerto do género, mas foi o primeiro numa grande sala (Chico Buarque e Simone tinham actuado na Festa do Avante!, dois anos antes, perante milhares de pessoas). Claro que, depois, a moda pegou. E vieram Caetano, Ney Matogrosso, Maria Bethânia, Gal Costa. E o que era raro passou a ser habitual. De tal forma que, hoje, dezenas de músicos brasileiros passam inevitavelmente por Portugal quando lançam discos.

O que se passou, desde então? Mais concertos, muitos mais. E discos com nomes que os portugueses nunca tinham ouvido sequer pronunciar. Mas o apego à música brasileira vinha muito de trás, das décadas de 60 e 70. Vinicius estivera em casa de Amália, dias antes do Natal de 1968 (o encontro foi gravado em disco), Chico Buarque, Elis Regina e Bethânia tinham feito gravações para a televisão e nas casas de muitos portugueses há-de ainda haver um exército de discos de vinil a comprovar essa paixão antiga.
Mas o que os palcos iam fazendo as lojas tardavam a reflectir. Até que, em 1992, a Valentim de Carvalho tomou a iniciativa de importar centenas de discos brasileiros. Depois dela, outras lojas tomaram-lhe o gosto. Criou-se uma moda que garantia salas cheias para quase todos os espectáculos e que, seis anos depois, com a Expo'98, atingiu o auge. Num só ano, houve concertos de música do Brasil com muitas dezenas de nomes, dos mais célebres aos recém-chegados à ribalta.

Cansaço e crise
Dez anos depois, o que restou hoje dessa febre? Nos espectáculos, por norma, as salas continuam cheias. Ney Matogrosso esgota e Chico Buarque, após treze anos de ausência, superlotou os coliseus de Lisboa e Porto sete vezes em 2006. Mas nas maiores lojas de discos, agora quase restritas à cadeia da Fnac, as vendas vão mal.
Daniel de Sousa, da Warner, assinala uma "quebra grande nas vendas em relação às décadas de 80 e 90." Num mercado que, na sua opinião, "vale menos 50 por cento do que valia nessa altura", houve muitos músicos que baixaram o nível de vendas abaixo dos mil ou até mesmo 500 exemplares. Milton, Gil e Elis Regina ("que vai vendendo aos poucos") estão neste patamar. Outros mais novos, como os PLAP, os Titãs ou Paula Toller (dos Kid Abelha) nem sequer o atingem. Na última década, a Warner só teve um nome brasileiro com enorme relevo em vendas: Maria Rita, filha de Elis Regina. Mas tem diminuído. O disco de estreia, em 2003, foi um êxito, vendeu 50 mil, o segundo ficou-se pelos 20 mil e o terceiro pelos 6 mil. Daniel é de opinião que o excesso de música brasileira "cansou as pessoas".
Esse factor, o do cansaço, é também sublinhado por Pedro Trigueiro, da Universal. "A música brasileira era muito exótica, há uns tempos, mas com a presença em Portugal de muitos brasileiros banalizou-se." Além disso, as novelas, que são um forte veículo de promoção, "já não têm a força que tinham". Mesmo assim, a Universal tem nomes como Caetano Veloso, com um público mínimo garantido de 4 a 5 mil pessoas." Os seus discos vendem quase sempre entre os 10 e os 15 mil exemplares, com duas excepções antagónicas: Prenda Minha, que vendeu quase 70 mil em 1999, e Cê, com menos de 7 mil em 2006. E tem vendas mais altas, mas já com uma década: em 1997, um ano antes da Expo'98, o disco Banda Eva ao Vivo vendeu 97 mil e o cantor Paulo Ricardo quase 47 mil.
E os jovens? Daniel diz que eles "não ligam à música brasileira", enquanto Pedro garante que eles "ouvem, mas não estão habituados a ter discos". Um exemplo: DJ Dolores, distribuído em Portugal pela Megamúsica, só vendeu 200 discos. Quem o ouve? José Eduardo Santos, desta editora, diz que é um "público jovem, que gosta de música electrónica." Mas a fraca venda não o intimida. Em breve, a Megamúsica vai pôr no mercado outro disco dirigido a um nicho jovem, os Bossacucanova. Serão 500 CD e outros tantos DVD. "Para esgotar". A Megamúsica, que tem como "jóia da coroa" Bebel Gilberto (18 mil discos vendidos na estreia, em 2000), prefere "sempre lançar um nome brasileiro", desde que se aplique na sua promoção.
E há a rádio. Pedro Trigueiro diz que, "infelizmente, tende sempre a passar os clássicos, raramente arrisca." Mas, em contrapartida, "passa mais música portuguesa" (Ana Moura, por exemplo, já vendeu 50 mil exemplares do seu disco). Isso é também reconhecido por João Goulão, da IPlay. "Há um efeito de substituição pela música portuguesa", diz. E, como "não há tempo, nem dinheiro nem disponibilidade para descobrir caras novas", vendem mais os antigos. Alguns. Rita Lee foi aos 9 mil exemplares com Balacobaco, mas Djavan ou Ivan Lins vendem "muito pouco". Tal como Fernanda Takai, Chico César, Roberta Sá ou Rodrigo Maranhão que, no entanto, "vão vendendo" e podem ser uma mais valia. Acima, esteve Ivete Sangalo: o seu Perfil vendeu 12 mil exemplares por altura da participação no Rock In Rio.
Sertanejos e literatura
"O mercado da música brasileira continua a ser extremamente apelativo para Portugal", diz Cátia Maurício, da Sony/BMG. Reconhece que o número de edições "desceu consideravelmente nos dois últimos anos", mas a qualidade e o potencial comercial compensarão a queda. Daniela Mercury, do seu catálogo, detém o recorde dos anos 90 (Feijão com Arroz, 250 mil) e "é um exemplo extraordinário de vendas em Portugal", diz Nuno Robles, da Sony/BMG. Que dá outro exemplo: Vanessa da Mata já vai em 40 mil exemplares vendidos de Sim, "muito 'por culpa' do dueto com Ben Harper". Adriana Calcanhotto, com o recente Maré (16 mil), já vai "a caminho da Platina".
A EMI, por sua vez, também "não tem sentido grande retracção", diz Paulo Fernandes. Mas reconhece que se anda "ao sabor do mercado". Maria Bethânia, do seu catálogo, "é muito regular", chegando a vender 20 mil. Mas em 2006, ano em que lançou dois discos de uma vez, um deles (Mar de Sophia) vendeu 8 mil enquanto o outro (Pirata) se ficou por metade. Já Seu Jorge tem vendido entre 3 a 4 mil e Ney Matogrosso (que, ao vivo, esgota muitas salas) ainda ronda os mil no CD e outros tantos no DVD de Inclassificáveis. Um fenómeno fora do normal foram os Tribalistas (Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown juntos): 180 mil exemplares vendidos em 2002.
Agora, algumas editoras estão a virar-se para a música sertaneja. Daniel de Sousa, da Warner, diz que se entrou numa "fase de venda de música caipira, aos brasileiros que cá estão". A colectânea Coração Sertanejo nº1 vendeu 10 mil, a nº 2 já vai em 7 mil. Já a Sony/BMG vai apostando em Bruno & Marrone, Zezé di Camargo ou Victor & Leo.
A par da música, houve quem editasse livros a ela ligados. A extinta Palavra, por exemplo, apostou em duas biografias sólidas, Carmen, de Ruy Castro (sobre Carmen Miranda, que nasceu faz hoje 100 anos), e Cazuza, ambas com vendas abaixo dos 2 mil. Gonçalo Bulhosa culpa as lojas, porque as colocaram na prateleira da música e não na das biografias. Já a Quasi lançou vários títulos de músicos como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Adriana Calcanhotto ou Arnaldo Antunes. Letra Só, de Caetano, vendeu 4 mil; e Algumas Letras, de Adriana, 3 mil. Jorge Reis-Sá quer continuar a experiência, lançando primeiro em Portugal edições inéditas. "A ideia é continuar a trabalhar com o Brasil", diz ele. E mostra confiança.

2 comentários:

gasosa disse...

abraço forte da gasosa colonizadora. :P

Raphael disse...

Rapaz, parece que esse pessoal de gravadora faz questão de embassar a visão da própria realidade, criando desculpas razas para o inescapável fim de seu modelo de trabalho. Ao invés de pensarem em soluções e dialogar com o novo mercado, encontram justificativas pra continuarem afundando no buraco.